segunda-feira, 28 de maio de 2012

Fragmentos - O soldadinho de Chumbo e a Bailarina.


"Todos os soldados se pareciam exatamente uns com os outros, exceto um, que não possuía uma perna, porque o tinham posto na fôrma em último lugar, e já não havia chumbo suficiente. Apesar deste defeito, os outros não se firmavam melhor em duas pernas do que ele na sua única.
Sobre a mesa em que os nossos soldados estavam formados havia outros brinquedos; mas o mais bonito de todos era um lindíssimo castelo de cartolina.Tudo  era encantador, mas não tanto como uma menina à porta, e  que era também de cartolina, com um lindo vestido de cassa, apertado por um cinto de fivela azul. A menina apresentava os braços arqueados, porque era dançarina, e uma  perninha  levantada a tal altura que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou que, como ele, não teria senão uma perna.
"Ali está a mulher que me convém", pensou, "mas é uma grande fidalga. Mora num palácio, eu em uma caixa em companhia de vinte e quatro camaradas; e aqui  não haveria lugar para ela. No entanto, preciso conhecê-la."
Os únicos que estavam quietos eram osoldado de chumbo e a dançarinazinha - ela no bico do pé, ele numa perna só,a espreitá-la.
Deu meia-noite, e zás! a tampa da caixa de charutos levanta-se, e saiu um feiticeirozinho vestido de preto. Enciumado, ele viu como o soldadinho olhava embevecido para a dançarina.
- "Soldadinho de chumbo", disse o feiticeiro, "trata de olhar para outro lado."Mas o soldado fez que não ouvia.
No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puseram o soldado de chumbo à janela; mas, de repente, ou por influência do feiticeiro ou por causado vento, caiu à rua de cabeça para baixo.
A chuva começou a cair em torrentes, e transformou-se em verdadeiro dilúvio.
Depois do aguaceiro passaram dois garotos.- "Olá!", disse um deles, "um soldadinho de chumbo por aqui! Vamos fazê-lo navegar."
Construíram um barco com um pedaço de jornal velho, meteram o soldado de chumbo dentro, e obrigaram-no a descer pelo regato abaixo. O barco lançou-se sobre a queda d'água, e o pobre soldado firmava-se o mais possível, e ninguém se atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com medo.
Nesse momento supremo, pensou na gentil dançarina, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:- "Soldado, o perigo é enorme, a morte espera-te."O papel rasgou-se, e o soldado passou através dele. Nesse momento foi devorado por um grande peixe.
Após todo o ocorrido,o peixe foi pescado, exposto na feira, vendido, levado para a cozinha, e a cozinheira abriu-o com uma enorme faca. Pegou no soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda gente quis admirar esse homenzinho extraordinário, que tinha viajado na barriga de umpeixe.Entretanto, o soldado não se sentia orgulhoso. Colocaram-no em cima da mesa, e ali - tanto é verdade que acontecem coisas extraordinárias neste mundo - achou-se na mesma sala, de cuja janela havia caído. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam em cima da mesa, o lindo palácio, e a adorável dançarina sempre de perna no ar.
O soldadinho de chumbo ficou tão comovido, que de boa vontade teria derramado lágrimas de chumbo; mas isso não seria decente. Olhou para ela,ela olhou para ele, mas não disseram uma palavra ao outro.
De repente, um dos pequenos pegou nele e, sem motivo algum, atirou-o no fogo; eram obras do feiticeiro da caixa de charutos.O soldadinho de chumbo lá estava perfilado, iluminado por um clarão sinistro,e sofrendo um calor terrível. Todas as cores lhe tinham desaparecido, sem que se pudesse dizer se era por causa de suas viagens, ou por causa de seus desgostos. Continuava a olhar para a dançarina, que também olhava para ele.Sentia-se derreter, mas, sempre corajoso, conservava a espingarda ao ombro na atitude marcial.De repente, abriu-se uma porta e um golpe de vento arremessou a dançarina ao fogo, para junto do soldado, que apareceu no meio das labaredas. O soldadinho de chumbo não era mais que uma pequena massa informe. 
No dia seguinte, quando a criada veio limpar a lareira, ficou espantada ao encontrar um pequeno coração de chumbo com uma fivelinha azul."

 Hans Christian Andersen










 *Pequenas Análises ...
Uma narrativa sobre um grande amor entre o Soldadinho de Chumbo e a Bailarina.
Além do amor, trata-se de um conto sobre ética,diferenças culturais,identidade e aceitação das diferenças.
Seus personagens são brinquedos,representando a impotência das crianças incompreendidas e cheias de desejos que ninguém escuta.
Simbolicamente o chumbo representa o peso da individualidade incorruptível.Para a transmutação do chumbo em ouro,os alquimistas buscavam metaforicamente desprender-se das limitações individuais,para atingir os valores coletivos e universais.
 O soldadinho ao ser retirado da barriga do peixe, seria como o renascimento do personagem.
A morte do soldadinho e da bailarina seria como uma transformação, pois somente nesse momento que os dois conseguem ficar unidos.Da união surge um coração significando o amor  infinito.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Na hora de partir.

Tenho apenas algumas horas.
Depois disso eu vou partir.
Deixei minhas malas dentro do carro - só pra garantir.
O resto eu levo depois.

Meu coração fica.

Vamos aproveitar as poucas horas que nos restam.
Você mostra a palma da sua mão,
Eu mostro o que carrego dentro dos bolsos.
Por fim nos tocaremos.

Os olhos ficam.

Eu direi o que me falta dizer.
Você diz o que te deixei faltar.
Não precisaremos de muitas palavras,fique tranquilo.
Gastamos todas as outras horas com elas,lembra?
Apenas olhe o que restou.

A boca fica.

Agora abra essa janela,por favor.
E me abrace porque sinto frio e calor ao mesmo tempo - pela última vez.
Me olhe e admire o que ainda ficou.

Meu relógio.Fica.

E agora eu preciso apanhar minhas malas naquele carro.
Decidi ir caminhando.
O peso da bagagem não há de pesar mais do que sobrou em mim -será um alento,uma distração.
E vou,sim, eu vou andando.
Arriscarei alguns passos sozinha.

Você pode ficar com o meu passado .

Fica se quiser.

Porque eu vou.



segunda-feira, 21 de maio de 2012

Tributo a sua ausência.

Já se passaram cinco anos e eu mal tive notícias suas.
Passei o olho em algumas fotografias - houveram outros amores, eu sei.
Percebi que seu gosto mudou e que suas idéias já são outras.

Mas o amor...demora.

Sei que já são cinco anos.
Mas eu ainda me lembro de todas as suas palavras.
Inclusive, escrevi suas palavras no meu caderno e as uso pra falar sobre amor e outras dores.
Gravei o timbre da sua voz e o procurei em outras bocas.
Aqueles sons ainda me provocam qualquer coisa - e ainda me pego repetindo seus versos (em uma tentativa frustrada de dar aquela mesma entonação) .

Mas jamais haverá outras bocas.
E não adianta procurá-lo em outros timbres.

O nosso reencontro ontem me fez constatar o quanto você sempre será insubstituível.
Ouvi e repeti todas as suas palavras como se fossem preces.
Repetia alto,na esperança que você vibrasse com a minha presença - vibrasse na mesma frequência.

Reconheci no seu tom a dor em mim guardada.
Reconheci nos seus versos os meus desejos ainda latentes
Percebi nos meus gestos as mesmas respostas.

O amor demora porque ainda se ama - mesmo em face a sua ausência.

Ainda alimento secretas esperanças - sobre aqueles nossos antigos encontros periódicos...
Iria onde quer que fosse só pra escutar seus devaneios.
Adoraria gravar no meu caderno seus novos versos (seus novos amores também seriam meus).
E eu levaria esse meu amor demorado até as últimas consequências.

Porque eu juro que tentei substituí-lo.
Briguei contra as minhas secretas esperanças -desfiz delas temporariamente.
E repeti outros versos  e idéias opostas às suas - na eterna tentativa de arranjar alguém pra me consolar.

Mas...veja bem meu bem.
Até hoje, o único que ocupou o seu lugar...
Foi a saudade.

E a solidão deixa o coração nesse leva e trás...

* Para Los Hermanos, com amor.



quinta-feira, 19 de abril de 2012

Aquela garota.

Passei por multidões até encontrá-la.

Quis passar desapercebida-não deu.
Ela quis desfazer das semelhanças - não deu.

Foi inevitável o início de algo concreto - independente de outros amores.

Independente de tudo e todos.

É como enfrentar o espelho a cada encontro. Nela vejo refletida até o que me é desagradável - o que em mim é desagradável.Nela é qualidade.
Uma sintonia entre dois mundos. Parece um cérebro compartilhado em dois corpos tão distintos.

Impressionante como o encontro de almas se faz em meio ao improvável.

Antes aquela garota, amiga do Pedro. Agora é nossa, é minha, sou eu.
Antes um encontro.Agora deleite.
Antes parte.Agora meio.

Parte dela mora em mim - e parte minha agradece.
Outra parte... também.

Surpreendente é continuar me surpreendendo,mesmo em face ao tempo,aos problemas, aos desencontros.

Em face a vida, faz-se luz.

Aquela garota...a nossa, a minha, aquela que sou eu...

Foi o melhor presente que o presente me deu.

Thanks,cacá.





Indagações sobre vírgulas,pontos e etcéteras (aprenda a conviver com meus textos)

Não boto ponto final pra concluir uma frase.
Eu boto ponto pra dar um respirada.
A vírgula é porque eu falo pausadamente - as vezes eu pauso demais, eu sei.

E assim vai.

Páragrafo onde não tem, serve apenas como reticências.
Assuntos diversos num mesmo contexto, sem exigir iniciar outra frase - as vezes eu atropelo demais,eu sei.

Pular linha duas vezes, é pensando em quem lê. É pensando em mim,na maioria das vezes,porque as vezes só eu que leio mesmo. O "pulo" é uma respirada profunda,uma fórmula contra enjôo.

Traço é sempre fazendo referência a algo- explicações à parte, justificar a frase.

E os três pontos...adoro três pontos... dá uma suavizada...uma leveza... assim como eu gostaria que meus textos fossem.

Enfim.

Eu sei sobre minhas obrigações. Sei que existem padrões e etcéteras.

Por isso peço licença.

Pra escrever da forma que eu sinto, do jeito que vem, sem ler duas vezes. Peço licença pra minha incontinência verbal.
Deixa eu cuspir as palavras.Deixa eu ditar um tom, pelo menos sobre o que eu escrevo.

Agora sai da frente, por favor.

Me deixa pecar pelo excesso.













Obs: Sobre os erros ortográficos...não. Eles não são propositais.
Por eles, peço desculpas.

terça-feira, 10 de abril de 2012


Eu não me entendo bem com o meu corpo.
E não consigo entendê-lo,na verdade.
Se ele pede banho - eu dou
Se ele pede capricho - eu me dedico
Se ele pede repouso - eu sou só seu.

Por mais que a mente queira tudo, sempre, sempre ao contrário.
Eu obedeço o corpo.

Comigo a mente nunca tem vez.
Acho ela um fardo muito grande pra se carregar.
Muito trabalho pra manter.
Eu a sossego com doses de ilusão.
Neosa-rivo-breja.
Três paliativos infalíveis.

Já o corpo...ah...o corpo.
Sempre me entrego.
Eu o banho,o acaricio,o mimo.
Dou-lhe roupas, perfumes, endorfina.
E ainda, ai de mim, exijo que os mais próximos o aprecie, respeite e se possível...lhe encha de prazeres e carícias mil.

Entretanto já não é muito de troca que a mente sobrevive.
Claro que eu a alimento de ideias imundas, livros infames, pensamentos destrutivos.
O meu olhar já se encarrega de transbordar conhecimento todos os dias.
Mas confesso, não a divido. Compartilhar o que tem dentro dela...não faz sentido algum.

Mas aí é que tá.

O questionamento nasceu no momento em que me olhei no espelho.

Lá eu vi que meu corpo é meu amor não correspondido.
Vi imperfeições nos lugares que tanto me dediquei.
Ele não me retribui o carinho diário, o apreço e o cuidado.
Sente fome, come, mas mostra que na verdade eu não deveria alimenta-lo- o preço que se paga é em kilos.

O preço que se paga é revestido em inflamações, indigestões e acnes. O investimento é sempre injusto e pequeno - cobra ele.

Ok. O amor é privação-já me disseram.

Dai nasce o momento em que se olha pra dentro.
Lá eu busco a mente - a solitária mente.
Essa sim, vive tentando me converter,me resgatar de todos os males que eu sempre busquei no impulso.
A mente me adianta o imprevisível, me indica aqueles melhores caminhos, as melhores pessoas.
É dolorosa, eu sei.
Mas ela não me abandona.
E ela que então me olha no espelho e que busca com sinceridade me mostrar o que é o amor.
"Ele mora atrás dos olhos" - ela me diz.

E eu me divido.
Porque a mente e o corpo não se bicam.
Penso logo em acordos, mas o pensar já me distancia do corpo, e quando penso em agir, a ação me distancia da mente.

A vida aqui dentro é um eterno martírio.
Mas é um prazer me afundar nesses delírios todos.
Nessas contradições que me fazem levar o título de humana.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Saudosa Elis, Elis querida.

Neste domingo ,ouvi a serra do curral cantar.
Ecoava uma voz familiar por entre as montanhas,embaixo de um céu "azulzin".
Tudo conspirava pra um encontro lindo.
Entrando no parque,um caminho de luz. O som parecia vir lá do alto. Mas o palco tava era ali num canto, num lugar que de forma alguma fazia jus a homenagem que se prestaria.
Aquela voz não cabia lá.A emoção também não.
É a vida ensinando pra gente que o que vai embora é mesmo só o corpo. O som ainda ecoava por entre as montanhas, as sensações tão latentes, mesmo depois de 30 anos sem Elis.
O legado foi pra Maria Rita. Ela pigarreou - eu percebi. A voz parecia entalada, porque dali voz e emoção não davam conta de saírem juntos. Ela cantava,emocionada,com os olhos sempre voltados pra cima.
Um misto de música e prece se fez presente tanto no palco,quanto na platéia. 9 mil pessoinhas envolvidas num corrente de oração e voz.Saudosa Elis, Elis querida.
Quando fechava os olhos,me sentia em outra dimensão. A voz não era da intérprete. A voz que saía da filha não pertencia a ela. Elis tava ali, e o céu foi testemunha.
Eu particularmente gostei foi das olhadelas na partitura. A imensa vontade de fazer jus a cada palavra produzida pela mãe, na entonação exata, no tempo certo...era tudo vontade de não representá-la.O que a define como artista de verdade,na minha opinião. Ela nunca quis tomar o lugar da mãe. Ela nunca quis sequer ser comparada - por mais semelhante na competência e na fisionomia- ela quis ser o tempo todo somente a filha orgulhosa,agradecida,enaltecida.
Em suas vestes brancas, linda, serena, completamente dominada pela emoção, era só luz.
E as bolhinhas de sabão colaboravam pro contexto lúdico.
Ora Maria,ora Rita, ora Filha, ora Elis.
Era tudo feito de alma.